sexta-feira, 26 de março de 2010

O drama do professor

Quem não o conhece? Figura respeitada no passado, holerite que nada perdia para o juiz da cidade, hoje não passa de um mendigo de gravata tal a situação de penúria a que vem sendo exposto pelos donos do poder. Achatado, cada vez mais, em seus vencimentos, era, entretanto, em tempos que já vão longe, personagem central na comunidade em que estava inserido, indivíduo diante do qual tirava-se o chapéu para reverenciá-lo como cidadão, como responsável pela formação de nossas crianças e, sobretudo, como veículo de informação de nossa história, da área geográfica espalhadas pelos mapas-múndi, de como interpretar textos arrancados do cérebro criativo e da alma sensível de nossos poetas e escritores.
Se antigamente dava doze aulas semanais, e tempo tinha para prepará-las, hoje o professor virou caixeiro-viajante, porque, como um dos formadores de opinião, se vê cada vez mais achincalhado por nossos insensíveis governantes. Em 24 horas, para ganhar o amargo pão de cada dia, locomove-se para várias unidades de ensino, o que o impede de especializar-se como profissional da educação, quando essa deveria estar no topo dos que governam países, estados e municípios. E esses desconhecem o quão imprescindíveis são nossos educadores, na formação de nossas crianças, no conduzir nossos jovens, muitas vezes sem ter quem os oriente pelos ínvios caminhos de uma juventude sem freios, sobretudo desfalcada de líderes que tragam, dentro de si, a sublime vontade de servir.
è tarde da noite. E o professor volta para casa extenuado, sem mais sonhos para sonhar. De repente, não mais que de repente, dá um giro pelos jornais. Quem sabe, entre as nuvens do imprevisível, flutue algo de bom, algo que se chame esperança, ou quem sabe até a volta daquele passado radiante em que o professor era respeitado como uma das molas mestras do ensino. E tinha status. E tinha sua biblioteca particular. E viajava para o estrangeiro porque condições não lhe faltavam para conhecer países outros. Cansado, mas ainda cheio de ilusões, percorre as páginas do jornal. Olhos assustados, mal pode crer no que lê: "País só cumpre trinta e três por cento de metas da Educação". E mais abaixo: "Relatório mostra que ainda há alta repetência, a taxa de universitários é baixa e o acesso à Educação Infantil está longe do proposto". (...)
Arita Damasceno Pettená - Membro da Academia Campineira de Letras, Ciências e Artes das Forças Armadas. (Correio Popular - 26/03/2010)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Síntese da felicidade

Desejo a você
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma suspresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 14 de março de 2010

Quebrando o termômetro

Para a escola, no processo de aprendizagem, a avaliação é indispensável. Por meio dela é que se mede o que o professor conseguiu transmitir de conhecimento e o que o aluno conseguiu aprender. A melhor forma de avaliar é criar indicadores universalmente conhecidos, como sugere a Unesco, entre países, estados, escolas.
Foi pensando nisso que o MEC criou a avaliação nacional Prova Brasil, em 2005. Naquele ano, o Estado de São Paulo ficou em 6º lugar na prova de português e na 7ª colocação em matemática, na 4ª série. Já na 8ª série, o resultado foi ainda pior, ficando em 8º lugar em português e em 10º na avaliação de matemática.
O governo de São Paulo adota uma metodologia própria de avaliação - Saresp, que até 2008 era dividido em quatro níveis: abaixo xo básico, básico, adequado e avançado. Agora, os níveis básicos e adequados foram agrupados em um só, o suficiente. A nova classificação altera a interpretação do desempenho, pois a maioria que estava abaixo do desejado tornou-se uma maioria com aproveitamento suficiente.
Ou seja, a mudança de critérios não permite comparação nem com outros estados, nem com padrões internacionais e nem com o passado. E, mesmo assim, o quadro é muito ruim. Os resultados do Saresp 2009, recém-divulgados, mostram que o desempenho dos alunos do 3º ano do Ensino Médio não chega ao esperado para a 8ª série, o que representa uma defasagem gravíssima.
Não é possível aceitar essa deterioração do ensino público no Estado mais rico do país. Os alunos que estão saindo com três anos de defasagem de aprendizado são vítimas de uma política educacional inadequada. Não adianta tentar transferir responsabilidades. O governo anterior insistiu na política de aprovação automática, prática comprovadamente prejudicial. E o atual governo já trocou por três vezes o comando da pasta, mas continua sem uma visão integrada da Educação. Não há uma política de valorização do professor, elo fundamental para que se obtenha bons resultados.
....
Em São Paulo, precisamos promover uma ampla inclusão digital para dar salto tecnológico. Mas não é só. É preciso reavaliar a concepção pedagógica e, principalmente, investir na construção da carreira docente, com critérios de avaliação e promoção. O professor, que há anos enfrenta baixa remuneração e ausência de planos de carreira, precisa de planos de carreira, precisa ser valorizado.
Mudar as formas de avaliação e mascarar os dados não vai resolver a situação. Não adianta tentar baixar a febre quebrando o termômetro. Precisamos de mudanças. E urgentes.


Aloizio Mercadante - economista, senador e líder do PT no Senado. (Correio Popular - 10/03)

Educação pública estadual

Quero parabenizar o senador Aloizio Mercadante pelo seu artigo "Quebrando o Termômetro" (10/03). Finalmente alguém tem a lucidez e a coragem de colocar o dedo na ferida que é a educação pública no Estado de São Paulo. Sou professora e é revoltante sermos responsabilizados pela falência da educação. Se o arcabouço combalido da educação ainda está em pé é por honra e mérito dos professores que, apesar da ausência de uma política séria de educação, ainda enfrenta a guerrilha do governo na questão de carreira e salário dos professores.
Geny Ribeiro da Silva - professora da rede municipal de Campinas e rede estadual de São Paulo

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Educação no Estado de São Paulo - Avaliação

A Secretaria Estadual da Educação do Estado de São Paulo divulga informações sobre o SARESP 2009 - (prova aplicada anualmente pelo governo estadual para avaliar os conhecimentos dos alunos sobre os conteúdos que eles devem aprender na 4ª e 8ª séries do ensino fundamental e no 3º ano do ensino fundamental, e sobre o IDESP - (Índice que varia de 1 a 10, formado a partir da nota dos alunos no Saresp e a quantidade de alunos na série correta para a idade).
Segundo o governo, o desempenho dos estudantes da rede estadual de São Paulo melhorou no ensino fundamental em lingua portuguesa e Matemática entre 2008 e 2009, enquanto que no ensino médio houve uma pequena melhora em língua portuguesa e uma piora em Matemática.

Saresp (de 125 a 500) - Resultados 2008/2009

4ª série:
Língua portuguesa:
2008 - 180,0
2009 - 190,4 ------> + 5,8%

Matemática:
2008 - 190,0
2009 - 201,0 ------> + 5,8%

8ª série:
Língua portuguesa:
2008 - 231,0
2009 - 236,0 ------> + 2,2%

Matemática:
2008 - 245,0
2009 - 251,0 ------> + 2,4%

3º ano - Ensino médio:
Língua portuguesa:
2008 - 272,0
2009 - 274,0 ------> + 0,7%

Matemática:
2008 - 273,0
2009 - 269,0 ------> -1,5%


Idesp - ( de 1 a 10) - Resultados 2008/2009

1ª a 4ª séries:
2008 - 3,25
2009 - 3,85 ------> + 18,5%

meta para 2030 -> 7,0

5ª a 8ª séries:
2008 - 2,58
2009 - 2,83 ------> + 9,7%

meta para 2030 -> 6,0

Ensino médio:
2008 - 1,99
2009 - 1,97 ------> - 1,0%

meta para 2030 -> 5,0

O governo estadual divulga os resultados obtidos na avaliação de 2009 com muito louvor, enfatizando sempre que a educação estadual está no caminho certo, que tem melhorado e vem melhorando constantemente devido as ações e investimentos feitos pelo governo estadual.
Se fizermos uma análise dos resultados obtidos nos últimos anos, veremos que não há nada a comemorar.
Devemos lembrar também que esse governo está no comando do estado de São Paulo há quase duas décadas. Portanto, os alunos que estão finalizando o ensino médio são frutos de uma política educacional excludente e vexatória imposta no estado de São Paulo pelos governantes que têm assumido o comando estadual nas últimas duas décadas.

Análise dos resultados:

SARESP:

Considerando a escala de pontuação de 125 a 500 e levando em conta que os resultados apresentados pelo Saresp, temos a seguinte situação:
1 - A escala partindo de 125, se levarmos em consideração a escala máxima de 500, o aluno já parte com 25% da nota máxima. Mesmo assim a nota média fica por volta de 50% da nota máxima, ou seja, se for subtraído os 25% equivalente a nota inicial, a nota média será de apenas 25%.
2 - Subtraindo a nota inicial da nota máxima, teremos um intervalo de notas variando de zero a 375. Seguindo esse mesmo raciocínio, subtraindo 125 da nota média obtida, a média será de aproximadamente 29%.
IDESP:
Considerando que os resultados do Idesp são apresentados com notas variando de 1 a 10, a situação não fica diferente, pois a média geral obtida nos três segmentos é de aproximadamente 2,7, com um agravante para o ensino médio, se a análise for feita por segmento.
No Idesp,analisando cada segmento individualmente, observa-se uma queda progressiva das notas obtidas, a medida em que aumenta o nível de ensino (Esse fator não se apresenta nos resultados apontados pelo Saresp). Esse decréscimo gradual é atribuído também pela equivalência da idade/série que diminui com o aumento do nível de ensino.
Mais uma vez o governo estadual, levianamente, tenta colocar a culpa da má qualidade da educação na parte mais fraca -"o professor".
Com o dinheiro público este governo gasta altas cifras para veicular constantemente nas mídias impressas e televisivas, propagandas no mínimo ludibriadoras, para passar uma falsa imagem da boa qualidade da educação, da preocupação do governo para com a educação de qualidade para todos.
Quem conhece a educação de perto, ou mesmo quem tem filhos, sobrinhos, vizinhos ou qualquer contato com a escola pública da rede estadual sabe que o governo omite a verdade quando veicula na mídia que as escolas estaduais têm: "salas de aula com dois professores", "aula de recuperação durante o ano todo", "laboratório de informática em todas as escolas durante todo o período, inclusive aos finais de semana", "kit de materiais para todos os professores", "biblioteca funcionando em todas as escolas".
A realidade das escolas estaduais é bem diferente do que é pintada pelo governo nas mídias. A realidade é: quando consegue montar uma turma de reforço, não tem espaço físico para que aconteça; quando tem um laboratório com dez computadores para atender turmas com 40 alunos, as máquinas estão obsoletas ou até mesmo sucatas; quando tem biblioteca, fica em um ínfimo espaço e ficam fechadas por falta de atendentes; os kits dos professores resumem-se em giz e apagador; dois professores por sala? um professor e um estagiário somente na série inicial com turmas lotadas; formação continuada de qualidade (quando, onde?); bônus para professores? piada!!!!
O Secretário da Educação, o sr. Paulo Renato de Souza tenta encobrir as mazelas na educação feita pelos governantes que aí estiveram por anos a fio, e ainda está.
O sr. Secretário da Educação, na divulgação dos resultados do SARESP e IDESP e entrevista concedida e veiculada no jornal O Estado de São Paulo, hoje, 27/02/2010, atribui o baixo nível de conhecimento dos estudantes à falta de qualificação dos professores.
No seu discurso falacioso o sr. Paulo Renato de Souza alega que o fraco desempenho dos alunos, principalmente os alunos do ensino médio se deve ao pouco conhecimento dos professores de matemática, dá má formação dos mesmos.
O Secretário, de forma desrespeitosa para com os educadores, tripudia mais uma vez, dizendo que em março começará um curso de reforço para os professores de matemática da rede, com 240 horas à distância e presencial.
Gostaria de indicar um curso de matemática, de qualidade e presencial ao sr. Secretário, pois o mesmo não demonstra nenhuma habilidade para interpretar tabelas e gráficos, muito menos interpretar dados.
Qualquer pessoa leiga analisando os resultados, verá que no ensino fundamental I e II as notas obtidas em matemática são superiores às obtidas em língua portuguesa. A diferença entre as notas obtidas em Matemática e em Língua portuguesa no ensino médio estão muito próximas. Se a comparação for feita sobre as notas de 2008, as notas de Matemática são superiores as de língua portuguesa em todos os segmentos, sendo que os professores são os mesmos.
Não estou querendo fazer uma comparação dos desempenhos entre os componentes curriculares citados, pois todos os ínfimos resultados divulgados vem demonstrar mais uma vez o descaso pela educação por parte do governo que aí está.
Os resultados apontados são frutos do descaso, da superlotação das classes, da aprovação automática, do mísero salário pago ao professor, do não-incentivo ao magistério.
Gostaria que o governo publicasse na mídia que o salário do professor por uma jornada semanal de 24 horas é de apenas R$ 909,32; o vale alimentação é de apenas R$ 4,00 e nem todos os profissionais recebem e os mesmos não são pagos nas férias; que o sistema de saúde é inoperante; que o professor não tem água para beber nem cafezinho no local de trabalho (se quiser beber água e tomar café tem que pagar ou levar de casa) e tem que trabalhar doente, pois há cotas para os atestados médicos.
Deixo apenas quatro perguntas para o sr. Secretário da Educação do Estado de São Paulo e ao Governador:
1 - Os senhores sobreviveriam com o salário de um professor da rede estadual?
2 -Os senhores fariam uma alimentação digna com um vale de R$ 4,00?
3 -Os senhores levam de casa a água e o cafezinho que tomam em seus gabinetes?
4 - Os senhores sobreviveriam por mais de um dia tomando vários ônibus, enfrentando salas de aula com mais de 40 alunos, muitos com problemas sócio-afetivo-econômico?
Prof. Everaldo Rocha.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

(Des)Educação

A escola é essencial para a formação das crianças no ensino infantil e no ensino fundamental I, para os adolescentes do ensino fundamental II e ensino médio e para os jovens no ensino superior. O convívio social e cultural no ambiente escolar é fundamental para a formação e a socialização do indivíduo, do cidadão, assim como o conteúdo é essencial para a formação desse ser social como gente de fato.
Educação de qualidade para todos tem sido um lema proferido constantemente por políticos na última década, mas quem conhece o dia-a-dia da escola brasileira sabe que ainda está muito longe de acontecer.
Educação e conhecimento são as principais ferramentas de transformação do ser cidadão sociocultural para transformar o mundo.
Estudar para se desenvolver profissionalmente já não é uma prática frequente para os docentes, muito menos para os alunos.
A educação no país está longe de ser ideal. Os estudantes brasileiros estão entre os de pior desempenho no PISA (Programa Internacional de Avaliação Comparada), que mede a proficiência em leitura, Matemática e Ciências em 57 países.
A escola é responsável pelo ensino da leitura, da escrita, da matemática e suas regras, das ciências e suas tecnologias, entre outros conteúdos, mas isso está sendo deixado de lado quando o foco deixou de ser a aprendizagem para valorar a aprovação automática.
A pedagogia do descompromisso com a educação, praticada pela escola tem sido muito eficiente para acabar com a evasão escolar (alunos que não frequentam durante o ano letivo são agraciados, no conselho final, com uma compensação de ausências fictícia), e com a repetência (todos são aprovados com êxito: com ou sem rendimento satisfatório, e com ou sem frequência mínima exigida pela LDB).
Se o objetivo é desconstruir a educação, o poder público, juntamente com grande parte dos profissionais da educação estão conseguindo.
Mais um ano fico irritado com a postura descompromissada de alguns colegas de trabalho: professores, coordenador e diretor de escola na reunião de conselho final.
Quando, no início do conselho da escola na qual trabalho, para definir os alunos que foram promovidos ou retidos, nos foram apresentados pela direção da escola, planilhas onde alunos com rendimentos insatisfatórios, alunos com excesso de faltas, alunos que não frequentaram a recuperação final já estavam todos promovidos pelo conselho, antes mesmo deste acontecer.
Minha indignação maior foi está numa sala com mais dez colegas de trabalho, professores educadores que acharam aquela insensatez normal, se omitiram, e, até mesmo pactuaram com tal insensatez alterando notas e compensando ausências para tornar a ilegalidade legal.
Naquele momento me sentir um verdadeiro trapo, um ser impotente ante à insignificância aos valores morais e éticos de uma profissão.
O golpe final foi cuase mortal para mim, quando o coordenador pedagógico ordenou a todos que alterassem os conceitos insatisfatórios (abaixo de cinco), para satisfatórios e quase unanimidade aceitou como se aquilo fosse a coisa mais normal que pudesse acontecer.
Diante de tal desatino, procuro me manter sóbrio para buscar forças para continuar na educação, buscando sempre não alimentar o descrédito e não me neutralizar por políticas e diretrizes educacionais vexatórias que são impostas.
Prof. Everaldo Rocha.